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03/12/2016 - UM MINUTO DE SILÊNCIO

 

 

Quando eu acordei terça pela manhã e liguei o meu celular, estava cheio de mensagens de um amigo me informando da tragédia com a Chapecoense. Levantei, liguei o rádio, liguei a TV e sentei na cadeira. Fiquei completamente atordoado. Meu cérebro estava tentando lidar, para me proteger, com a proximidade, com o ineditismo e com a noção de morte. Naquele dia, e nos dias seguintes dessa semana, senti uma ligação com a humanidade como eu nunca havia sentido antes. Eu saí na rua e senti um campo de força invisível me ligando a todos ao redor. Dei bom dia para o porteiro, como sempre faço, mas dessa vez esse bom dia foi diferente. Imaginei como essa energia estaria em Chapecó e nas redondezas do clube. Assisti à cobertura pela televisão e vi que essa energia não estava só em mim. Os colombianos lotaram o estádio e as ruas ao redor. Os torcedores da Chapecoense – que provavelmente não teriam ligação alguma sem ser o próprio clube – se abraçavam, davam as mãos. Os outros clubes do país trocaram seus avatares nas redes sociais pelo símbolo da Chapecoense. Clubes de outros países fizeram um minuto de silêncio antes de suas partidas.

A morte nos une. A tristeza nos une. Ter noção da própria existência e, assim, ter noção da finitude da vida pode ter sido um erro evolutivo. Talvez não estivesse nos planos da natureza que um dia algum animal entendesse esses conceitos. Saber que um dia vamos morrer é algo que nos diferencia dos outros animais. A consciência nos levou a coisas que outros animais jamais farão. Mas, junto na bagagem, veio essa sensação horrorosa: esse aperto no peito, esse enjoo sem explicação, essa vontade de chorar, essa agonia eterna.

A morte é boa. Costumamos nos distanciar dela por ser tão difícil compreendê-la. No fundo, todos sabemos que a nossa data está marcada. Que um dia seremos nós, lá, dentro do caixão. E as pessoas ao redor, desesperadas, tendo de lidar com a noção de finitude da vida. Conforme esse dia custa a chegar, nós vamos nos distanciando de nós mesmos. A cada dia que despertamos pela manhã nos sentimos mais invencíveis. Achando que não vai acontecer com a gente ou com quem está perto. Óbvio que a gente sabe. Mas parece tão longe, tão distante.

A tragédia com a Chapecoense nos coloca de volta na linha. A tristeza vem para nos lembrar da nossa insignificância. Da nossa fragilidade mental e física. Da fragilidade da existência. Voltamos às nossas raízes. Nos olhamos no espelho e já não existe mais aquela distância entre a morte e nós. Ela está ali só esperando o momento para atacar. Ao contrário da felicidade, que nos faz sentirmos super-heróis, que nos faz andar na rua de peito estufado como se nada daquilo fosse conosco, a tristeza nos coloca no nosso devido lugar. 

A felicidade nos divide. Cada um está em busca da sua própria felicidade. Cada indivíduo pode, no máximo, se juntar em pequenos grupos que compartilham da mesma felicidade. A felicidade é excludente. A tristeza nos junta. As ocasiões para a tristeza podem ser diferentes para cada um, mas a sensação é a mesma. Você pode se identificar com alguém triste mesmo que a tristeza daquela pessoa não tenha a mesma fonte que a sua. E, quando a fonte dessa tristeza é a mesma entre todos, a percepção que a morte é próxima, e que a vida é insignificante, nos nivelamos. Todos, agora, estão sentindo a mesma coisa. No Brasil, na Colômbia, na Alemanha, na França, na Austrália e etc.

O fator futebol contribuiu para essa ligação humana interplanetária. A noção de proximidade e ineditismo é o que nos faz valorizar mais, menos ou desvalorizar completamente alguma coisa. No caso da morte, quanto mais próxima ela estiver, mais nós sentimos medo. E quanto mais inédita ela for, mais assustados ficamos por percebermos que ela pode chegar a qualquer momento. Muitos reclamam que "morre gente o tempo todo na Síria e ninguém se comove". Sim, não há proximidade NEM ineditismo: você já espera que, em uma guerra, pessoas morram. E a noção de guerra é distante de nós. Não há impacto. Não há por que o seu corpo reagir para se proteger. Ele não considera estar em perigo. Quanto mais longe, mais seguros estamos.  

Quando a caverna de um homem primitivo era atacada, o homem da caverna ao lado pensava "podia ter sido eu" e, depois, "podia ter sido alguém que eu gosto". Se a caverna atacada é do outro lado do mundo, o cérebro dele não precisa reagir. Não foi "quase ele". Ele não precisa se proteger. A nossa comoção é um instinto de sobrevivência. Mas você não espera que um time de futebol, que está viajando para outro país de avião, morra. E você não espera isso porque não é algo corriqueiro. Assim, o futebol ajuda a quebrar a barreira de proximidade por ser presente na vida de todos, em todos os países. E é por isso que os clubes de futebol, alguns de outros esportes, bandas, jornalistas, comediantes, artistas, pessoas comuns, pais, mães, filhos, esquerdistas, direitistas, pagodeiros, roqueiros se envolveram. A tristeza nos une e o futebol ajuda a quebrar possíveis barreiras dessa união, aproximando a caverna de todos mesmo que elas sejam distantes.

A comoção em volta de uma tragédia nada tem que ver com gente querendo chamar atenção em rede social ou forçando um sentimento para aderir à moda. A forma como a morte atinge o nosso cérebro é muito mais profunda do que isso. Quando uma coisa dessas acontece e nós nos importamos, quando trocamos a foto do perfil pelo símbolo do clube em preto em branco, quando todos os times do planeta mandam mensagens de apoio, quando pessoas que nunca se viram na vida se reúnem no estádio, quando torcedores rivais trocam solidariedade, nós estamos, finalmente, celebrando a vida. Um choque desses nos mostra a banalidade de tudo. Assim, nós descemos do cavalo da alegria e da esperança. Paramos, nos abraçamos e celebramos a vida. Quando se percebe a insignificância e o absurdo de tudo, não há mais razão para brigar, discutir e se dividir.

Quando jogadores fazem um círculo e cumprem um minuto de silêncio, isso não é apenas um ritual burocrático para fingir sentimentos e passar na TV. O minuto de silêncio é viver pela primeira vez. Todo o resto é fugir: música, futebol, viagens, trabalho, diversão, filmes, seriados, encontros, festas, sexo, álcool. Tudo fuga. E, quando a morte vem e se esfrega na nossa cara, nós paramos. É um tapa na cara que nos diz "eu tô aqui, filho da puta". Assim, um minuto de silêncio é, finalmente, viver. É sentir o que é ser um ser humano pela primeira vez. A única forma de experimentar a vida nua e crua é estando em silêncio; parado. Quando milhares de pessoas em um estádio de futebol ficam em silêncio, isso é a celebração da vida. Estão todos quietos, sem distrações. Vivendo. Cada um percebendo a própria insignificância e a insignificância de quem está do lado. Estar em silêncio, sentir o próprio corpo, sentir o mundo. E, justamente porque o silêncio é viver, é que precisamos de estar sempre em movimento e fazendo barulho. Nós mal aguentamos dez segundos em silêncio com outra pessoa dentro de um elevador. 50 mil pessoas conseguindo ficar em silêncio durante um minuto significa muita coisa.

 

Ao perceber a nossa insignificância, é mais fácil ser solidário, abraçar, enviar uma mensagem e sentir compaixão por alguém que nunca vimos na vida. Essa é a "crítica" das pessoas que estão aproveitando esse momento para fingir que são os "diferentões", os "indiferentes", os "frios e calculistas". "Como podem vocês se importar com pessoas que nunca viram na vida?". Ninguém, no fundo, está se importando com as vítimas; nós estamos nos importando conosco, com o absurdo da existência e aproveitando para sermos legais uns com os outros POR CAUSA disso.

A morte e a tristeza são o nosso ponto em comum, onde nossas diferenças acabam. É o único ponto no qual rigorosamente todas as pessoas se identificam e são iguais. Você pode encontrar diferenças entre grupos e entre indivíduos, mas não importa o quão diferente elas sejam: na morte e na tristeza, todos se encontram. A tristeza nos faz pensar. E pensar nos faz sofrer. A tristeza nos acalma e nos faz perceber toda essa insignificância, a banalidade que é estar vivo. A felicidade nos leva para longe e nos faz sentir super-heróis. 

Nós estamos tendo um gostinho do que seria se a humanidade não rejeitasse a tristeza e, finalmente, aceitasse que somos todos minúsculos. Se nós tivéssemos essa noção, essa energia que ligou colombianos, brasileiros, gaúchos, catarinenses, paulistas, nordestinos, europeus, asiáticos, seria eterna. Infelizmente, é necessária uma tragédia para nos acalmar e nos ligarmos novamente. Portanto, aceite a finitude da vida, aceite a morte e aceite a tristeza. E, assim, nós poderemos, enfim, celebrar a vida e ter paz eterna.

 

Autor: Arthur
Tags: chapecoense , tragédia , tristeza , humanidade , união

 

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