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02/07/2016 - O futebol está em festa: Espanha e Bélgica de regresso a casa

 

 

Se você gosta minimamente do (bom) futebol, é impossível não considerar 2016 como o melhor ano desde a magistral década de 90 - Leicester campeão de Inglaterra contra as possibilidades mais absurdas; Chile bicampeão da Copa América (não interessa a validade da Copa Centenário); e agora um Euro onde estamos finalmente a testemunhar o triunfo do futebol operário sobre o futebol pós-moderno.

No fundo, essa seria sempre a consequência lógica dos últimos 10 tenebrosos anos, onde - à exceção da vitória do Inter de Milão na Champions 2010, comandado pelo nobre escudeiro José Mourinho e respectivos gladiadores Marco Materazzi, Ivan Córdoba, Lúcio e Dejan Stankovic - fomos vítimas de uma tortura que muitos apelidaram e apelidam de perfeição: o Barcelona e a Espanha de Guardiola (sim, ele nunca treinou a seleção de fato, mas foi sempre o técnico-sombra nas vitórias de 2008, 2010 e 2012), além das suas intoleráveis réplicas. 

O futebol não foi concebido para ser perfeito. Nasceu para rivalizar com os desportos (ou esportes, foda-se, lidem com esse colunista lusitano) das elites. Como o tênis, onde tudo tem de ser bonitinho, bem comportado, quem assiste não pode nem tossir ou largar um peido sob pena de ser expulso por um juiz que usa calça branca e fica numa cadeira protegido contra o sol. O futebol foi a resposta operária, da classe média/baixa, à perfeição que a elite sempre exige ao seu próprio comportamento. Um desporto violento, ruidoso, onde insultar o adversário é um ato absolutamente natural e não repreensível. Um desporto onde a frustração de um longo dia de trabalho é libertada, tanto pelos atletas, como por quem senta o cu na bancada. O futebol celebra o erro, vive pelo erro e a ele não se pode pedir a perfeição - sob o risco de condená-lo à monotonia de um torneio de golfe ou de um emocionante embate entre Djokovic - Murray.

O que Guardiola fez com o futebol é o que muitos artistas pós-modernos têm vindo a fazer desde os anos 50, mas num processo inverso. Enquanto esses artistas justificam as suas produções pela arbitrariedade da interpretação individual, e devido a essa mesma ausência de julgamento/critério elas ganham um lugar nas paredes dos museus, Guardiola justifica o seu futebol pela perfeição. A perfeição do passe, da recepção, da desmarcação, para delírio daqueles imbecis que contam os toques a cada jogada feita. Mas ambicionar a perfeição no futebol é o mesmo que tentar justificar que cagar numa folha em branco é o equivalente a um quadro do Raffael: em ambas as situações nós sabemos qual é o verdadeiro futebol e qual é a verdadeira arte; mesmo que finjamos gostar do cagalhão e adorar o Guardiola para transparecermos uma falsa intelectualidade que não possuímos.

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Ver a Espanha derrubada pelo 3-5-2 da Itália não foi mais que a reposição natural da ordem das coisas. É que o Antonio Conte fez parte dos grandes anos 90 italianos, década onde a Serie A foi simplesmente o melhor campeonato do planeta. E ele transporta a essência desse futebol operário para 2016: agressividade, marcação cerrada, faltas violentas, perda de tempo, simulação de lesões e substituições nos últimos 5 minutos de jogo. Onde a expressão fair play fica morta desde o minuto zero pois não há espaço para amizades quando é a honra individual que está em jogo. A Itália é uma seleção à antiga: todos jogam no mesmo campeonato, não existem estrelas e ninguém tenta ser perfeito. O quinteto formado por Buffon, Chiellini, Bonucci, Barzagli e De Rossi simboliza o futebol enquanto esforço, não o futebol enquanto peça de galeria artística. Não houve espaço para os pés de veludo do Iniesta porque esse desporto não foi desenhado para escultores e ensaístas, mas para empregados de fábrica, de roupa cagada de óleo e cara suja de ferrugem. 

A beleza, essa, que seja procurada noutros locais. Viaje até ao Grand Canyon. Visite Machu Picchu. Testemunhe a Aurora Boreal na primeira pessoa. O futebol não. O futebol pertence aos feios. Aos defeituosos, aos imperfeitos, aos anómalos. À maioria. E por isso é tão popular. O futebol é a materialização da guerra que já não existe: o combate, a disputa, os pés enterrados na lama, 11 sujeitos enfiados na trincheira a defender o 0-1 ao minuto 92, numa noite de chuva gelada.

A Bélgica, por tantos considerada a grande wild card do Mundial 2014 e desse Euro 2016, caiu pela ausência de operários e pela sobrevalorização dos falsos génios: Hazard, De Bruyne, Witsel, Lukaku, Carrasco, Mertens não são absolutamente ninguém sem uma guarda pretoriana que saiba o quão importante é uma falta violenta, uma marcação apertada, um chute direto à bancada para perder mais 30 segundos. A Bélgica julgou que venceria pela arte e perdeu contra o servo. Grande Gales. É preciso dizer que o Ashley Williams, capitão desse país, havia deslocado o ombro dias antes contra a Irlanda do Norte e ontem jogou de novo a titular, tendo feito o 1-1? É preciso dizer que qualquer belga, na mesma situação, teria de imediato recusado voltar a participar na competição? 

O futebol está de regresso. O bom. Leicester, Islândia, Gales, Chile, Atlético de Madrid. Acabou o espaço para a filosofia tática.

 

Autor: Emanuel Ramires
Tags: euro2016 , espanha , bélgica , guardiola , gales

 

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