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01/07/2016 - Argel e os nerds do jornalismo esportivo

 

 

 

 

Na minha breve passagem trabalhando como estagiário da Rádio Guaíba de Porto Alegre, no setor de jornalismo esportivo, consegui perceber que os profissionais dessa modalidade jornalística sofrem um certo tipo de autismo. Longe da possibilidade de chegarem ao nível mental de gênios que, normalmente, os autistas têm, o jornalista esportivo se fecha em um grupelho de mongoloides que se confirmam um ao outro e nunca terão a possibilidade de se enxergar de fora. É como se jogadores de Magic (ou qualquer jogo idiota desses de nerds) vivessem eternamente no mundo do Magic e se juntassem com outros seres que levam o joguinho tão a sério quanto eles; daqui a pouco eles estão discutindo sobre qual a melhor tática, qual a melhor carta e tudo vai crescendo enlouquecidamente. Eles chegam à fase adulta e seus empregos são discutir Magic, escrever sobre Magic, acompanhar campeonatos de Magic, analisar Magic e tudo parece normal, pois todos ao redor também estão fazendo isso.

O jornalista esportivo consegue ser mais patético do que esses fictícios jornalistas de Magic. Na sua maioria, eles são gordos, não praticam esportes e não se alimentam direito, nunca pisaram em um vestiário, nunca lidaram com atletas e diretores e, portanto, não possuem a mínima profundidade sobre a psicologia nas relações humanas, nunca lidaram com finanças complexas, nunca colocaram tática alguma em prática e nunca praticaram tática para combater outra tática; nunca realizaram sessões de treinos, nunca lidaram com pressão de torcida. Apenas juntaram o gosto pelo futebol, um diplominha de jornalista (conquistado em quatro ou cinco anos de um curso vazio), alguns livros sobre futebol e cursos sobre tática para se auto afirmarem “especialistas”, para imporem suas vozes na rádio e palavras no jornal como se tivessem todas as explicações e soluções para os times. Eles se fecham em um estúdio ou em uma redação para cagar regras e ordens sobre como um empregado de uma empresa deveria realizar o seu trabalho. Lógico que nós, seres humanos com a funcionalidade cerebral em dia, discutimos futebol e cagamos regra, mas sabemos que tudo é um grande absurdo e que as nossas vidas profissionais não estão ligadas nessas bobagens. Não consigo parar de me perguntar o que um sujeito que tem tanta certeza sobre as soluções e análises que vomita na mídia faz nessa mesma mídia, e não vai logo ganhar salários de 300, 500, 700 mil reais para aplicar a sua genialidade guardiolesa na prática. Como definiu magistralmente Bill Burr: “jornalistas esportivos são um bando de nerds, que nunca fizeram nada, interrompendo pessoas que sabem o que estão fazendo”.

Como pode um joguinho de bola ser tratado de forma tão séria? Futebol e Magic têm o mesmo valor. São duas inutilidades, bobagens e mesquinharias que jamais deveriam ser levadas a sério. Magic não é; é, apenas, levado a sério por nerds durante o período escolar. Se um sujeito de 35 anos continua a levar o joguinho a sério, temos um problema...

Uma das coisas que me irrita profundamente é ver no Facebook aqueles posts com a frase "e dizem que é só futebol" com alguma imagem tocante para provar que futebol é "mais do que um esporte". A última que me recordo é a de duas crianças onde uma delas tinha algum problema na perna e andava de muletas, mas emprestou uma das muletas para o amigo poder ver a despedida de Diego Milito pelo Racing. Só porque a totalidade das pessoas de um determinado ambiente são doentes, não significa que esse ambiente seja algo especial. Significa justamente o contrário: que esse ambiente é doente e foi transformado em um hospício a céu aberto por esses doentes, sem ninguém pra se questionar "Cara, o que eu estou fazendo? Me contorcendo em cima de uma muleta pra enxergar um cara jogando bola. O que é isso?". E, depois desse questionamento, evoluir e tratar o futebol como ele deveria ser tratado: uma futilidade como é o Big Brother. Se eu tiver que emprestar a minha muleta pra um cara poder enxergar por cima de um muro um sujeito qualquer jogando bola, algo está errado. Saliento que futilidade não é o contrário de diversão.

Não consigo deixar de perceber no ar algum tipo de patologia quando escuto algum jogo em uma rádio, noticiário esportivo ou debates futebolísticos. A cada lance, a cada manchete, o repórter fala como se estivesse presenciando extra terrestres pousando na Terra. Em tom de noticiário urgente, eles gritam: "fulano de tal treina com bola e pode jogar a próxima partida", "fulano de tal está na mira de tal clube e pode assinar nos próximos dias". E daí? Sem contar as perguntas: "escalou o Fonseca na lateral hoje, poderia me dizer por quê?". Deve ser porque o Fonseca é o pior jogador do elenco e ele quer destruir a lateral do time. "Está preparado para o jogo de hoje?". Não, não. Não estou. Nem sei por que sou jogador de futebol. Nunca vi jogadores de Magic fazendo isso, já jornalistas de futebola...

E as "análises táticas"? Já te adianto uma coisa: tática não serve pra nada. Tática é a maior enganação do mundo do futebol. A única coisa que um "sistema tático" pode fazer é destruir o próprio time, porém jamais vence o jogo. Colocar o goleiro de centroavante, 8 jogadores como atacantes ou loucuras do tipo. De resto, é só manter a base e o equilíbrio entre zagueiros, meio campistas e atacantes e o jogo se resolve na SORTE e no talento individual. No livro Guardiola Confidencial, o jogador Thiago Alcântara afirma que o sucesso do técnico espanhol se deve mais ao trabalho psicológico e motivacional com os jogadores do que com o trabalho "tático" - até porque Guardiola mudava de tática a cada mês, mas nunca mudou a forma de tratar os atletas. E a única vez que fracassou foi quando cometeu a loucura de colocar quatro atacantes e dois meio campistas contra o Real Madrid, na semi final da Champions League 2013/2014. E é por isso que jornalistas esportivos se apegam tanto à parte tática do jogo: porque é a parte mais básica e rasa do jogo, fácil de teorizar e explicar (qualquer jogador de FM sabe explicar e analisar táticas); mas nunca falam sobre as relações humanas, o psicológico, a motivação, o trabalho do dia-a-dia, as sessões de treinamento, a dificuldade em lidar com diferentes personalidades, desavenças entre colegas de equipe: porque é impossível comentar de fora e sem ter experiência nessas situações.

E, na medida em que tratam o futebol como um assunto importantíssimo, criticam aqueles que também tratam o futebol como um assunto importantíssimo. Sempre que ocorre briga entre torcidas ou torcedores vão até o aeroporto xingar e bater em jogadores, os jornalistas esportivos são os primeiros a disparar "não consigo compreender como isso pode acontecer", "estamos no século 21, gente", "cenas lamentáveis aqui no estádio", "não há mais espaço para isso no futebol". Ora, o que é um sujeito que age dessa forma se não uma pessoa que leva o futebol a sério? Jornalistas esportivos não são, de forma alguma, responsáveis pela violência nos estádios (que eu acho muito legal e considero que não deveria ser reprimida), mas estão no mesmo barco que estes torcedores e, portanto, devem calar a boca.

E aqui chegamos no fato da semana. Vazou na internet um áudio do técnico do Internacional, Argel Fucks, há dois dias do Grenal, pelo primeiro turno do campeonato brasileiro de 2016, conversando com um amigo, ou sei lá o que foi esse áudio. Ele diz "tamo trabalhando bastante, né, e cheguei agora de Vitória, Espírito Santo, amanhã trabalhamos de manhã[...] já tem o clássico domingo e, domingo, se Deus quiser - e Deus quer - a gente arruma a casa aí e passa o trator por cima dos cara." Pronto. Era o que a imprensa precisava.

Ser jornalista é como ter um galão de 20 litros de água para encher por dia no meio do deserto. Quando surge milagrosamente uma gotinha de água nesse ambiente improvável, eles se agarram com todas as forças para colher essa gotinha e colocar no galão. Focam todas as atenções nessa gotinha e a tratam como a coisa mais importante do planeta. O que sobra no garrafão, completam com diarreia e vômito.

Qualquer debiloide como eu consegue perceber a lógica na frase do Argel: vamos arrumar o time, que está mal, e, arrumando, vamos ganhar o jogo. Mas a imprensa precisa de assunto. E, para ter assunto, eles vão ignorar a realidade e vão distorcer lógicas transparentes para poder completar a programação ou o espaço do jornal. Qualquer faísca será motivo de incêndio. Para entender porque isso acontece, é necessário entender como funciona a faculdade de jornalismo.

Em primeiro lugar, ao exigir diploma para ser jornalista, você cria regras em algo que não deveria existir regras. Jornalismo é arte, é instinto. Criar regras para arte e para instinto bloqueia os lugares onde essas duas qualidades poderiam chegar. E por que professores, alunos e profissionais do jornalismo acreditam que a sua profissão deve ter regras? Porque eles juram de pé junto que jornalismo é a maior, mais bela e mais importante profissão do mundo, que eles carregam a democracia nas costas, que eles têm a missão de "melhorar a vida da população" e, diante de tantas qualidades e tamanha responsabilidade, é necessário que uma atividade dessas tenha que ter regras. Durante o curso inteiro de jornalismo na faculdade, você vai viver numa constante masturbação coletiva, onde um aluno masturba o outro, os professores masturbam os alunos e os profissionais da área masturbam a todos esses repetindo essas "qualidades" incansavelmente para que ninguém perceba que, no fundo, jornalismo é um hobby. Você nunca vai ver um neurocirurgião dizendo "a nossa profissão é muito importante, nós precisamos ser valorizados, nós melhoramos a vida da população" ou um engenheiro dizendo "minha profissão é demais, eu tenho muita responsabilidade, eu construo pontes e prédios que melhoram a vida da população". Eles não precisam fazer isso, porque eles são, de fato, importantes. E quanto mais você precisa afirmar alguma qualidade para o público e para os seus colegas de hobby, mais você deixa transparecer que, no fundo, a sua escolha profissional não é importante.

Depois de criar esse ambiente de constante verificação por conta da suposta responsabilidade social do jornalista, eles enfiam goela abaixo as "éticas" da profissão. Jornalista não tem e não deve ter ética. Até porque ética é pessoal. Ética é construída após a maturidade pela observação pessoal. Ética jamais vai ser absorvida por meio de um manual ou de ensinamentos de professores. E qual é o resultado dessa bobajada toda? Alunos dependentes de regras, de manualzinho de ética, de "manual de redação", com medo de errar, de ser espontâneo no microfone, reféns do politicamente correto e do discurso da moda. E aí, quando um jornalista se depara com uma frase diferente, de um ser humano normal que não foi consumido por regras de expressão e éticas sem sentido, ele se descontrola.

Todos, rigorosamente TODOS os jornalistas aqui do Sul do Brasil estão escandalizados com a frase do Argel. Os poucos que admitem que a frase não tem nada de mais ainda assim afirmam que, apesar disso, "esse tipo de coisa em semana de clássico Grenal inflama o jogo". O que temos aí se não aqueles jogadores de Magic confirmando uns aos outros dentro da sua própria loucura? Se esse tipo de "declaração" acirra os ânimos tanto de torcedores como de dirigentes e atletas, é justamente pelo nível de importância que os nerds do futebol dão às situações corriqueiras do futebol - que não são só corriqueiras no futebol, mas em qualquer relação humana. Tudo o que o Argel disse foi a expressão de uma esperança; ele tem esperança que Deus vai ajudar ele a arrumar o time e, uma vez que o time esteja arrumado, eles terão capacidade de "passar o trator" no Grêmio. E essa expressão "passar o trator" é a frase que mais tirou do eixo os jornalistas. Por estarem submersos em uma diarreia de politicamente correto, regras e manualzinho de ética e redação, eles não admitem que alguém possa falar no seu dia-a-dia profissional expressões desse tipo. Qualquer pessoa que já participou de competições esportivas na época da escola sabe as coisas que são ditas. "Vamos matar eles", "lesiona o fulano de tal", "xinga a mãe do atacante pra ele se desconcentrar", "enfia o dedo no cu do zagueiro na hora do escanteio", "vamos lá e vamos destruir esses merdas". Agora imaginem as coisas que são ditas nas grandes competições, nos grandes clubes e nos grandes clássicos. Os jornalistinhas ficariam horrorizados por saber que nem todo mundo segue a risca as suas regrinhas inúteis de convívio humano e expressão.

"Ah, mas os jogadores se motivam quando isso acontece!". Sim. Jogadores de futebol, normalmente, são burros e se deixam levar por qualquer coisa. E quando a mídia trata de um assunto banal como se fosse o início da terceira guerra mundial, não interessa a quantidade de explicações lógicas para mostrar o real sentido da frase; o sentimento já está impregnado na cabeça de torcedores, dirigentes, atletas e jornalistas, uma vez que determinada expressão passa a ter valor emocional e não linguístico.

"Ah, mas hoje em dia temos que cuidar o que dizemos nas redes sociais". Sim, temos que cuidar porque idiotas como você vão pegar qualquer gotinha de água no meio do deserto e vão fazer um carnaval com aquilo, como se estivesse caindo uma tempestade inacreditável e, não satisfeitos, vão fazer a população inteira acreditar que a tempestade é real.

Argel não falou nada de mais. A reação nessas e em outras situações do tipo é fruto de profissionais criados na universidade e condicionados a reagirem de forma histérica a tudo o que veem de não condizente com o que aprenderam; trancafiados em seus estúdios e redações, reféns de regras e manuais, criam um mundo paralelo ao mundo de verdade. Se surpreendem quando têm contato com seres humanos normais. São crianças brincando de Magic que cresceram e se desenvolveram em um ambiente fechado com outras pessoas brincando de Magic e transformaram uma idiotice qualquer em profissão, em assunto sério, em responsabilidades. E possuem, em suas mãos, o instrumento para convencer aos outros que o mundo paralelo é o real e o real passa as ser paralelo.

Bastaria um momento de lucidez para qualquer jornalista que cobre futebol perceber:
- E é gooooooooool!! Gol do Fonseca!!!!! A jogada começou pelo círculo central, após a troca de passes José arrancou com tudo pela lateral direita e colocou na cabeeeeeça do Ricardo pra mandar pro f-u-n-do da rede... meu Deus, o que eu estou fazendo? Um cara chutou uma bola numa rede e eu estou aos berros segurando um microfone. Eu me demito.

E eu, que sou o maior covarde do planeta terra, sei que eu jamais teria coragem de falar tudo o que eu falei nesse texto na frente de um jornalista. Somos todos merda.

 

Autor: Arthur
Tags: futebol , jornalismo , grenal , argel , esporte

 

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