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29/06/2016 - Brexit: quando a velha direita tem de fazer o trabalho da esquerda

 

 

Toda a gente sabe aquela conversa de que o Marx teorizou o comunismo como um movimento revolucionário que aconteceria nas grandes cidades industriais - mas acabou por se estrear na Rússia, país que em 1917 estava ainda longe da industrialização do Reino Unido ou Alemanha. A conclusão é fácil: qualquer revolução/alteração de status quo é feita por quem tem menos a perder. Não interessa se é camponês ou industrial - um pobre em situação extrema irá sempre testar uma alternativa antes de alguém que vive sem dificuldades.

No séc. XX, esquerda e direita tentaram, em situações de crise económica e social, convencer o blue collar worker de que a sua visão de futuro era a correta. Ambas tiveram vitórias pontuais, mas a longo-prazo foi a direita que venceu, pois com a queda do Muro toda a gente entendeu que a URSS e os seus discípulos eram uma enorme farsa. Hoje em dia a falência da esquerda continua: não dá para limpar o cu na Venezuela, turistas são presos durante 20 anos na Coreia do Norte por coisas insignificantes, cubanos continuam a preferir Miami a Havana. O marxismo, e as suas 5000 versões, continua a prometer o paraíso na Terra, mas só imbecis menores de 18 anos (Berniebots...) podem ainda acreditar nele.

A falência da esquerda ficou óbvia no Brexit. Ela nem participou no debate. Vejamos: no Reino Unido, o blue collar worker foi deixado ao abandono com a quebra na indústria e a globalização. Em Inglaterra, especificamente, com exceção de Londres (que é quase uma cidade-estado), todas as regiões vivem uma situação de estagnação, desemprego e crescente pobreza. Poderíamos pensar: ei, aqui está uma excelente oportunidade para o Labour do marxista Corbyn aumentar os seus votos e combater o Cameron. Aliás, todas essas regiões industriais foram antigamente terreno forte do Labour. Foram, já não são. 

O Labour se dividiu por dentro. Não conseguiu tomar posição concreta sobre o Brexit. Nada. A questão se tornou então um debate entre a direita liberal globalista e pró-europeia (Cameron) e a direita conservadora e eurocética (Farage; Johnson). A última sabia que nunca poderia conseguir grandes votações em Londres - é a única cidade que realmente beneficia em estar integrada no sistema financeiro europeu e tem uma população demasiado heterogénea para a retórica do UKIP -, então fez a sua campanha nas regiões tradicionalmente Labour (que o Labor deixou ao abandono). 

E venceu aí. 

Esse é um pequeno gráfico que mostra as cidades cuja indústria é relevante no UK. Se vocês pesquisarem essas mesmas cidades nos resultados do Brexit, verão que em quase todas a MAIORIA da população votou a favor da saída. E a explicação é óbvia, já mencionada acima: a UE é um organismo transnacional que se preocupa somente com a globalização e respetivo progresso tecnológico, julgando que todo o Continente é jovem, moderno e trabalha com apps para iOS e Android. Esqueceu que existe gente com +35 anos, baixa qualificação e cujo emprego foi arrasado por essa política globalista que concede todas as facilidades à deslocalização de empresas e à criação de paraísos fiscais dentro do próprio território (Luxemburgo). Não se trata sequer de inteligência vs ignorância, como o spin mediático de esquerda quer fazer crer. Quem votou Brexit não é burro e velho: é alguém numa situação vulnerável, com baixos rendimentos, à mercê de uma política de mini-jobs e baixa salarial provocada pela nova onda de imigração. E a esquerda, que deveria defender a sua causa, é a primeira a criticar a votação e a utilizar o espaço público para ridicularizar 17 milhões de pessoas que votaram pela saída. 17 milhões = 27% da população total / sensivelmente 37% da população votante. Mas é óbvio que todos são burros, é obvio, é só ler o The Guardian ehehe.

O mesmo acontece em França: são os blue collar workers que alimentam a Frente Nacional e serão eles que em 2017 vão provavelmente eleger a Marine Le Pen como próxima Presidente da França. Enquanto isso, a esquerda não consegue fazer absolutamente nada: o Syriza foi uma tentativa ridicularizada pelos burocratas de Bruxelas (os mesmos que hoje a esquerda parece defender, porque preferem escolher esse inimigo do que reconhecer a realidade na base da retórica da direita conservadora), o Podemos em Espanha é provavelmente o partido mais ridículo que existe na Europa, o Bloco de Esquerda em Portugal está apaixonado por si mesmo e pelo feminismo inconsequente, porque prefere estar na moda das redes sociais do que compreender a vida real.

Por isso, uma vez mais, terá de ser a velha e boa direita a corrigir esse projeto político falhado que é a União Europeia. As nações estão a acordar. Enquanto isso, já há papel higiénico na Venezuela?

 

 

Autor: Emanuel Ramires
Tags: nigelfarage , brexit , davidcameron , labour , 

 

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