Arthur Petry

 

O TÍTULO DO GRÊMIO ME FEZ TER UM ORGASMO

Por: Arthur11/12/2016

O título desse texto é literal. Não é uma hipérbole. Eu gozei. De verdade. Esperma saiu do meu pau involuntariamente na madrugada seguida do título do Grêmio da Copa do Brasil de 2016. Acordei, pelas cinco da manhã da quinta-feira, sentindo o prazer sexual do orgasmo. Ainda misturado com o sono, não estava percebendo se era uma sensação imaginária, produto de algum sonho, ou se era físico. Eu não estava sonhando com nada, com nenhuma mulher, com nenhum ato sexual. Quando despertei, pensei: não pode ser. Passei os dedos no meu calção para decifrar se era sonho ou realidade. Estava todo gozado. Levantei, fui no banheiro e mijei. Não estava conseguindo compreender aquela situação. Seria efeito do No Wanks? Seria vontade de trepar? Não. Eram quinze anos guardando agonia, raiva, inveja, ódio e inferioridade que foram expelidos pelo símbolo da conquista masculina: o jato de porra que voa para longe do nosso corpo mostrando para as fêmeas e machos ao redor quem é o conquistador daquela terra.

 

É verdade que eu tinha largado o futebol há muito tempo. Não frequentava mais o estádio nem acompanhava pela televisão. Mas de nada adiantava me afastar do futebol se, no meu cérebro, já estava impregnado o DNA de ter escolhido um clube quando criança. O Grêmio e o futebol fizeram parte da minha infância. Ia no estádio com o meu tio, tinha um monte de camisas, andava com uma diferente por dia. Eu não sabia, mas torcer pra algum time era mais importante pra minha natureza do que eu imaginava. Naquela época, o Grêmio era o clube vencedor, superior, conquistador. Assim, seus torcedores eram superiores. O Inter era inferior. O colorado era o povo colonizado; o gremista, o dominante. Só que esse período de superioridade passou. A última conquista do meu povo cerebral havia sido em 2001, época em que eu estava no início da adolescência. O que aconteceu foi que, justamente quando eu comecei a me entender por gente, comecei a passar da adolescência pra juventude e da juventude pra fase adulta, o Grêmio sucumbiu. Eu não era mais o povo colonizador. Agora eu era o inferior que tinha sido humilhantemente retirado do seu território pelo rival fraco, pequeno e, por isso, inesperado. Assim, me afastei do esporte, achando que dava pra enganar o meu cérebro. Parei de torcer, parei de ver. Mas a cada conquista do Inter e a cada derrota do Grêmio o meu subconsciente era triturado. A agonia estava lá sendo moldada e alimentada a cada eliminação e humilhação.

 

Na quarta-feira, foi a primeira vez em que eu coloquei a camisa do Grêmio em cinco anos. Mas esse título não tem nada a ver com futebol, tem a ver com retomada de poder e senso de masculinidade. O esporte é a evolução da violência. É a forma civilizada de ser agressivo - ou seja, masculino. Em vez de enfiarmos espadas no estômago do povo ao lado, invadir sua cidade e declará-la nossa, nós paramos e dissemos: "Vamos parar com essa loucura. Por que a gente, pra saciar a nossa vontade masculina de conquista e dominância, não paramos de nos matar e vamos decidir isso vendo quem consegue saltar mais alto, correr mais rápido, chutar mais bolas em uma rede?". Esporte não tem nada a ver com inclusão, como querem dizer os politicamente corretos, demagogos e publicitários de movimentos sociais. Esporte é bullyng, é exclusivo, é mostrar quem é inferior e quem é superior, quem domina e quem é dominado. Na Olimpíada, países disputam para ver quem é superior; na Copa do Mundo também; a Champions League é pra decidir quem manda na Europa; Libertadores para decidir quem manda na América do Sul; ligas nacionais para decidir quem domina o país; ligas regionais para decidir quem domina a terra; rivalidades locais para decidir quem é dominante e quem é dominado na cidade. Os torcedores dessas equipes são o povo esperando os soldados voltarem vitoriosos. Substituímos o nosso instinto de conquista e violência por algo divertido e civilizado.

 

Por isso mulheres não dominam esportes e não frequentam estádios. Não tem nada a ver com machismo. A maior participação de mulheres no esporte e no estádio não foi um resultado natural, foi uma forçação de barra. Foi movido à campanhas publicitárias demagogas e narrativas clichês até isso se inserir artificialmente na sociedade. A mulher não precisa do esporte, porque ela não precisa conquistar para ser fêmea. A mulher já é fêmea desde o nascimento; ela não precisa tornar-se mulher. O homem, para se tornar homem, precisa ser algo além dele. Ele precisa conquistar, dominar, se projetar. E não só ele precisa se projetar para ser um homem, mas como ele precisa conquistar para chamar atenção da fêmea. As mulheres acompanhavam futebol antigamente para celebrar e admirar a masculinidade. Hoje, elas se enfiam em estádios e no futebol só para provar que são "iguais aos homens".

 

Na noite da final, quarta-feira, dia 07 de dezembro de 2016, eu tinha prova na faculdade. Não consegui assistir o primeiro tempo e perdi metade do segundo. Achei que isso seria ruim, mas foi a melhor coisa que me aconteceu. Pude sentir o clima da cidade ao me dirigir à faculdade e, depois, voltando dela e indo até o bar onde assisti o restinho da partida. Havia um silêncio barulhento e agoniante naquela noite. O barulho eram os colorados com medo de serem retirados do trono; o barulho eram os gremistas esperançosos. O silêncio eram os colorados com um fundo de esperança de que aquela realidade poderia ser quebrada; o silêncio eram os gremistas acostumados a quinze anos de derrotas com medo de que o filme da humilhação tricolor se repetisse. A mistura disso tudo resultava em uma agonia perceptível no clima de Porto Alegre.

 

De dentro do carro vi a cidade vazia. As poucas pessoas que passavam pela rua estavam com bandeiras do Grêmio nas costas, carros com a bandeira no vidro e indivíduos vestindo tricolor. Há quanto tempo eu não via aquilo acontecer? Que saudades. Tive um resgate da minha infância, uma nostalgia absurda. Ver o Grêmio ter se tornado um clube inferior e perdedor e o Inter, por sua vez, um clube conquistador e dominante era como se alguém tivesse destruído o pilar da minha vida - a minha infância - com uma martelada. De uma hora pra outra, a minha infância não fazia o menor sentido e não me sustentava mais. Eu estava perdido no meu senso de natureza. Mas, naquela viagem pela cidade vazia, alguém estava juntando os pedaços e colocando tudo de volta em seu lugar. Eu estava voltando a ter personalidade, a minha vida voltava a fazer sentido.

 

Fiz a minha prova e, pelas 22:00, voei pra casa feito um jato. Liguei o rádio a todo volume na Rádio Guaíba - peça formadora da minha infância e, por isso, da minha personalidade - e me senti de novo nos anos 90. Cheguei em casa e jantei o mais rápido que pude, pois sou gay e faço dieta (não pulo refeições). Saí de lá e fui, a pé, para a Avenida Goethe assistir o restante do jogo em um bar onde vi o Grêmio ser o clube dominante durante a minha infância inteira: no Twister. Mal sabia eu, mas estava prestes a ter a melhor sensação espiritual dos últimos anos.

 

O tempo congelou enquanto eu caminhava rápido até o bar. Agora, fora do carro, eu estava sentindo a cidade me engolir. Aquele clima de silêncio barulhento e agonia estavam em mim e eu estava contribuindo para ele - uma retroalimentação. Não havia carros na rua. A primeira coisa que vi nesse trajeto foram dois gremistas com bandeiras grandes nas costas se esforçando para levar uma caixa de cervejas para sei lá onde. Quando vi isso, o meu braço direito ameaçou arrepiar e a minha garganta iniciou o processo de enosar. Pensei que aquilo era uma brincadeira do meu corpo e ignorei. Continuei caminhando, ouvindo a Rádio Guaíba, e, quando olhei pra direita, havia um bar tomado por azul, preto e branco. As minhas bases começavam a se encaixar novamente e, por isso, minha nuca arrepiou junto com os meus braços. Falei, baixinho, "para com isso". Segui em frente e passou um carro com a Rádio Gaúcha a todo volume e uma bandeira do Grêmio no capô. Os arrepios voltaram. Parei, olhei pro chão e falei "não é possível que isso esteja acontecendo". Os meus olhos se encheram de lágrimas, mas as engoli. Dei tapas no meu rosto e voltei pra caminhada. Chegando perto da Goethe, aquele silêncio barulhento e agoniante tomou conta de mim por completo. A minha infância estava se restabelecendo. Era inacreditável. Parecia um sonho; eu caminhava tão rápido, com pressa pra não perder o segundo tempo, mas era como caminhar nas nuvens. Aquele momento deve ter durado umas oito horas no mundo espiritual. Finalmente, meu corpo disse "não aguento mais, preciso desabar". Parei, um pouco antes de chegar no destino, coloquei as mãos na cintura, as lágrimas voltaram aos meus olhos, a minha garganta se fechou por completo e pensei "é agora". Meu lado insensível resistiu, me deu socos no rosto e disse pra parar de frescuras. Bufei, respirei, arrumei meu tronco, sequei os olhos e dobrei à direita, em direção ao bar.

 

Chegando lá senti as mesmas coisas que senti quando eu era criança. Aquele clima de final, aquele azul dominante, aquelas pessoas se sentindo imponentes. Surpreendi por trás do meu primo, que já estava lá, e toquei no ombro dele. Quando me viu, abriu um sorriso e me abraçou forte. Em 2001, no último título do Grêmio - a mesma Copa do Brasil - nós estávamos juntos. Tínhamos 12 anos. Não assistimos ao jogo naquele bar, mas lembro que, na outra esquina, atravessando a rua, nós compramos um pôster do Grêmio Campeão da Copa do Brasil 2001. Naquele mesmo bar, assistimos ao jogo contra o Náutico, na Batalha dos Aflitos. Hoje ele é casado, tem um filho e outro a caminho. Mas, naquele momento, éramos duas crianças de novo. Mal assisti ao jogo. Fiquei absorvendo aquele clima e observando a situação. Olhava pra trás, para os outros bares, e não conseguia acreditar que aquilo estava de volta. Núcleos de gremistas em volta de todos os bares da avenida, carros buzinando, prédios com bandeiras penduradas. Por eu estar ouvindo o jogo no rádio, eu escutei o gol do Grêmio antes de ele acontecer na TV. Não esbocei nenhuma reação; apenas fiquei esperando o gol se confirmar na televisão para sentir o bar explodindo e a avenida ecoando. Comecei a dar tapas que aumentavam de intensidade nas costas do meu primo conforme a bola ia chegando perto da goleira. Quando o gol se concretizou, dei um passo mental para trás e observei de fora do meu corpo aquela situação. Eu estava todo arrepiado, louco pra desabar em lágrimas.

 

O apito final - a confirmação do título - foi tão surreal que eu paralisei. Meu estômago parecia o big bang prestes a ocorrer. As pessoas corriam em câmera lenta pela avenida, as bandeiras balançavam lentamente, as cervejas voavam em slow motion. Apenas a minha consciência estava em tempo real. O ambiente era surreal. Eu e o meu primo caminhamos pela Avenida Goethe conversando e lembrando do título de 2001 e da série B de 2005. Admitíamos mutuamente que futebol tinha perdido a graça e que não era como antes, mas ambos sentíamos uma energia extraordinária por conta desse mesmo insignificante futebol. Ele, pai de família, teve que ir embora cedo. Fiquei sozinho andando pra lá e pra cá naquela avenida observando tudo o que estava acontecendo. Parei em cima de um morrinho de grama e fiquei assistindo, por cima, aquele mar azul tomando conta da Goethe. O que estava no subconsciente de todos os gremistas ali presentes não era, simplesmente, o fato de ter conquistado um título. Era um alívio mental, uma retomada de poder, um suspiro depois de 15 anos preso e encarcerado na cela da humilhação e da derrota.

 

Depois que senti tudo o que tive pra sentir, comecei a minha caminhada de volta para casa. Dei a última passada pra lá e pra cá no meio da multidão. Meu corpo pediu pra chorar de novo. Vi uma rua escura e pouco movimentada que desembocava na avenida e decidi ir até lá chorar. Parei embaixo de uma árvore, botei as mãos na cintura, senti o nó na garganta, senti as lágrimas percorrendo o meu rosto até invadir o meu globo ocular, senti a barriga prestes a explodir; lembrei da minha infância, lembrei da sensação de superioridade que eu tinha na escola ao ir com a camisa do Grêmio pra aula e senti que aquilo estava sendo reconstruído. Era agora. Era o momento. Era só chorar. Era só desabar e voltar para casa livre daquilo; renovado. Meu lado grosso e insensível invadiu esse cenário, chutou tudo o que tinha na frente e, de novo, me mandou parar de frescuras. Ele tinha algo guardado para mais tarde. Aquilo tudo não podia simplesmente sair do meu corpo da forma mais clichê do mundo: chorando que nem uma menininha.

 

Entrei no apartamento e tirei a camisa do Grêmio que já estava toda suada e fedida na axila. Pendurei ela no ombro, abri a porta da geladeira, tirei meu iogurte light (dieta homossexual), coloquei numa caneca e adicionei duas colheres de aveia. Comi ouvindo a Guaíba. Lavei a louça, fui para o banheiro, tomei uma ducha com o radinho ligado na janela do banheiro. Coloquei uma bermuda, apaguei a luz e deitei com os fones ligados no rádio. Adormeci em meio as repercussões jornalísticas nos ouvidos. Agora o caminho estava livre para aquele meu lado insensível, ignorante, grosso, agressivo e violento -  minha masculinidade - se manifestar. O acúmulo de todas aquelas sensações foi expelido pelo meu pênis, pelo meu espermatozoide, pelo meu símbolo de conquista. O meu povoado era superior mais uma vez. Que coisa maravilhosa.

 

Eu encerro esse texto me dirigindo aos colorados. Cair para a segunda divisão vai ser a melhor coisa que vai acontecer com vocês. Melhor que as duas libertadores, melhor que o mundial, melhor que o domínio regional, melhor que as vitórias em grenais. O que está prestes a acontecer - escrevo esse texto no sábado, antes da última rodada do brasileirão - é o equilíbrio cósmico. Ninguém pode ser "campeão de tudo" sem pagar a conta. O colorado é um mimado; um adolescente que sempre teve tudo. Era muito estranho um clube que não sofreu ter, do nada, conquistado tudo e passado por cima do seu rival. Os colorados alegam que as décadas de 80 e 90 foram horríveis para eles. Mas, vejam bem: na década de 90, a mais vergonhosa do clube vermelho, eles conquistaram essa mesma Copa do Brasil, tão comemorada pelos gremistas e, de quebra, viram o Grêmio jogar a segunda divisão de 1993. O pior momento do Inter não foi nada. Foi um soprinho, uma cosquinha. Por isso, o desespero assola os corações colorados nesse momento. Porque vocês são garotos mimados que nunca apanharam na cara, que se assustaram com um mísero "bu" na década de 90. Esse é o maior trauma da vida de vocês. Agora vocês vão se tornar homens. O homem que sente o verdadeiro sofrimento e não pode chorar. Tem que segurar, ser forte e aguentar o que vier pela frente. Levem a experiência desse gremista aqui: disputar a segunda divisão, em 2017, vai fazer vocês, um dia, não simplesmente comemorarem um título, se abraçar e chorar. Vai fazer vocês ejacularem inconscientemente durante o sono.

 

 

Autor: Arthur
Tags: grêmio , copadobrasil , inter , 2016 , rebaixamento

 

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